sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Este imenso maternal vazio

Texto do livro :Tempus fugit de Rubem Alves.

Para que as crianças durmam no escuro sem medo não existe nada melhor do que colo de mãe.O que torna estranho que justamente as estórias que se contavam para que o sono viesse mais depressa colocassem as mães longe,muito longe .Na "Branca de Neve" ela  aparece por um instante apenas,quando o sangue pinga e avermelha a neve acumulada sobre o parapeito negro de ébano da janela; ela deseja então ter uma filha com a pele branca como a neve, faces avermelhadas como o sangue e cabelos pretos como o ébano.Mas ela existe apenas neste momento efêmero de desejo, pois  morre  logo que a menina nasce. O pai -  dele não se tem notícias. Na "Cinderela" acontece algo semelhante. A estória se inicia com a morte da mãe, o casamento do pai com a madastra e a distância sem remédio do pai , que partiu em viagem sem retorno.Há também uma outra ,  o pai se casando com a vizinha, partindo para uma longa viagem , a filha à mercê da madastra, que acaba por enterra-la viva pelo figo da figueira que o passarinho bicou. Há outras estórias em que a mãe aparece . Mas ela se parece mais com madastra. Como é o caso de "Chapeuzinho vermelho", menina bobinha que a mãe envia sozinha à floresta , mesmo sabendo que um lobo andava por lá.Ou "João e Maria" que, dirante  a noite , ouvem horrorizados os planos que seu pai e sua mãe faziam de matá-los, abandonando-os às feras da floresta.
Repete-se um mesmo "script", como se as estórias , diferentes fossem apenas variações de um único tema :O abandono da criança, entrgue à  madastra , sem ter quem a acuda , infinitamente longe de uma pai distante , infinitamente longe da mãe que nada mais é que memória , ausência, um grande vazio no meio da noite...Somos órfãos .
E, no entanto , foram estas tristes estórias que nos fizeram dormir.Não é estranho isso? Que tenha sido repetidas por gerações - que tenham sobrevivido?O segredo , talvez , esteja no fato de que elas contam , no fundo , nossa própria estória:somos crianças perdidas na floresta , aterrorizadas pela noite que se aproxima, por fora e por dentro, sendo inúteis todos os gritos.
E não  há mãe cujo colo seja grande bastante para adormecer o nosso medo.
Na lingua Zulu , quando alguém deseja dizer"muito longe", o que se diz é uma palavra que, se traduzida literalmente , significaria:" Lá onde alguém grita:Ó mãe , estou perdido..." Bonito isso, pois sugere a dor deste nome: Objeto supremo de desejo - é esta a face que se invoca na solidão - mas se sabe que ninguém responderá - estou perdido.
Compreendo o que fizeram os contadores de estórias , ao enviar as mães para muito longe:é que não ha remédio para a nossa orfandade. Não é por acaso que este nome tenha sido transformado em simbolo sagrado, mãe de um Deus agonizante ,Pietá: para  dizer que  mãe alguma é esta Mãe desejada, em todas elas há um pouco de madastra. E um pouco de orfandade também : também elas estão perdidas e dizem a palvra zulu...
As estórias falam do nosso mundo interior e dizem que os universos que moram dentro do nosso corpo giram todos em torno de um Grande vazio que tem o perfil de uma mulher. Já observaram a escultura de Michelângelo? Não se trata de uma mãe real . Ela é jovem demais, rosto quase juvenil , e as dobras do vestido sugerem a beelza de um corpo de mulher. Seus olhos estão no ventre do filho perdido , morto.Seus braços o acolhem . Até a orfandade suprema, da própria morte, ficaria bela se houvesse a Grande Mãe Pietá para nos contar estórias.
Mora em nós a madastra( a ser perdoada).
Mora em nós a criança perdida ( cujo nome se ouve noite adentro).
Mora em nós este imenso maternal vazio, que acalanta os nossos sonhos( em cujo colo adormecemos).
"Quando eu morrer , seja eu a criança, o mais pequeno.Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e hmano e deita-me na tua cama .E conta-me histórias , caso eua corde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é"(Fernando Pessoa).